#RotaFarroupilha: Camaquã, uma tímida localidade repleta de histórias.



O primeiro dia de nossa viagem pelos Caminhos Farroupilhas começou em Porto Alegre, logo cedinho, e adormeceu em São Lourenço do Sul, a cidade das águas doces e mansas. A primeira parada turística foi em Guaíba, a  cidade onde o movimento farroupilha ganhou corpo e de onde partiram nossos revolucionários para a tomada de Porto Alegre das mãos dos imperialistas. Tivemos horas deliciosas na cidade, como contei aqui.

Ao sairmos de Guaíba rumamos em direção a Camaquã, uma importante base dos farroupilhas na Costa Doce. 



Camaquã possui uma importância histórica única para o Rio Grande do Sul, pois abrigou os farroupilhas ao longo de muitos anos da revolução, foi sede do estaleiro republicano e cenário de importantes acontecimentos, mas hoje tenta se reerguer como destino turístico


A cidade tem origem em três sesmarias, uma das quais de propriedade do Capitão Joaquim Gonçalves da Silva, pai do General Farroupilha Bento Gonçalves. Foi ele quem pediu a criação da Capela Curada de São João Batista, que deu origem a cidade. Considerado seu fundador, não foi o nome de maior destaque na história, em vista dos feitos heroicos do filho. O povoamento foi iniciado por famílias açorianas a partir de 1763, mas somente com a doação do terreno e pedido de criação da Capela Curada, já em 1815, é que a mesma se consolida como freguesia. Após a chegada dos açorianos e portugueses, recebeu correntes migratórias de alemães, franceses, espanhóis e poloneses. 



As diversas influências foram ficando marcadas na arquitetura local.




Parte do antigo território agora pertence a outras cidades, que dela se emanciparam. Espalhadas pelo interior desses municípios antigas residências de heróis farroupilhas e de seus familiares, bases dos revolucionários, ainda permanecem de pé, enquanto a última morada de Bento Gonçalves é uma réplica. 

A atividade pecuária e as charqueadas se desenvolveram fortemente na área. Homens ricos como o pai de Bento, que possuía sesmaria na cidade de Triunfo, trouxeram prosperidade para a região, que se comunicava com o resto do país a partir das águas do rio Camaquã. A facilidade de transporte da produção, de bens e pessoas fez com que as sedes das propriedades de alinhassem junto às margens do rio. Por lá se encontravam as casas de Bento e de suas irmãs, Anna e Antônia. 

Uma propriedade se destaca pela beleza e por estar, ainda hoje, com suas linhas originais bastante preservadas - a Estância da Figueira, uma das propriedades da família e primeira casa de Don'Anna (Dona Ana Centeno, irmã de Bento). Construída em 1795 ocupava uma importante elevação de terreno, de onde podiam visualizar um raio de 50Km e observar a possível movimentação de tropas legalistas na região. Já viúva ela administrava a propriedade e seus 500 empregados, algo pouco mencionado pelos livros de história - muitas mulheres assumiram as propriedades rurais ao longo da Guerra, por ausência ou falecimento dos maridos. Atualmente pertence ao diretor de teledramaturgia Jaime Monjardim e foi restaurada, mas fechada para a visitação pública. 

Durante a revolução a propriedade foi escolhida para sediar o Estaleiro da República Rio-Grandense, montado em galpões da sesmaria do Brejo. Com a chegada de Giuseppe Garibaldi o sonho de combater por água se fez realidade, tendo ele contratado marinheiros em Montevidéu, coordenado junto com o americano John Griggs a construção, a instalação dos armamentos e determinado fossem os lanchões transportados por água e terra até alcançarem o mar. 

Como se vê do mapa, as propriedades se espalhavam pela região hoje conhecida como da Pacheca, com ligação por água com a Lagoa dos Patos.



Para mim a história dos lanchões é das mais belas da Revolução Farroupilha. Um sonho de um visionário (ou de um lunático sortudo, segundo alguns). Dentro de uma estratégia muito bem planejada, construíram e lançaram os lanchões Seival (de 12 toneladas) e Farroupilha (de 18 toneladas) nas águas serenas da Lagoa dos Patos até alcançarem o rio Capivari, de onde foram conduzidos por terras lamacentas até a barra do rio Tramandaí, ganhando o mar. Para que isso fosse viabilizado, além da estratégia para distrair os imperialistas enquanto passavam com as embarcações pela lagoa e pelo rio sem serem confrontados,  construíram imensos rodados de madeira revestidos de couro crú, que puxados por 100 juntas de bois, os arrastaram por 90 quilômetros até reencontrarem as águas que os levariam para Laguna/SC, para a batalha que permitiu a instauração da República Juliana. 


A sesmaria do Brejo e a Estância da Figueira já tinham marcado presença em nossa história, mas tinha mais. Casamentos entre primos sempre foi algo muito comum e apreciado pelos estancieiros e foi o que se deu entre o filho de Don'Anna (Antônio José) e a filha de Bento Gonçalves (Maria Angélica). Mesmo após a mudança de Donana para a Estância do Sobrado, a Estância da Figueira continuou como importante centro familiar e se transformou, com a morte do General, na casa de Caetana, sua esposa de origem paraguaia. 

Ao longo da Revolução Don'Anna acabou fixando residência na Fazenda do Sobrado, hoje município de São Lourenço do Sul - o famoso sobrado da minissérie global A Casa das Sete Mulheres, que visitamos na sequência.

Camaquã foi uma cidade planejada, conforme mapa de 1857. Na década de 1920, após a derrocada das charqueadas, além da criação de bovinos encontrou novamente riqueza e prosperidade na avicultura. Hoje em nada lembra o local que contou com uma das primeiras redes telefônicas do interior gaúcho e com uma pista de pousos da Varig. Agricultura e pecuária seguem sendo as bases da economia local, município agora conhecido como a Terra do Arroz Parbolizado. 

A disposição dispersa dos atrativos históricos e a inviabilidade de visitação de alguns, retiram da cidade o que seria seu forte aporte turístico. Por outro lado, não se engane, ela pode ser ideal para uma rápida parada. 


Fomos recepcionados pelo pesquisador e historiador Paulo Vianna Sant'Anna, entusiasta da capacidade turística do município e responsável pelo Museu Divino Alziro Beckel. Foi com ele que passeamos pela cidade. Na praça central encontramos a Igreja Matriz de São João Batista, que se encontra em pleno processo de restauro, a sede da Casa do Poeta Camaquense e o Cinema Coliseu. 


Ter uma Casa do Poeta numa praça é de uma beleza impar e, segundo registros, única no Brasil. Abriga a produção local, exposições e proporciona diversas atividades em seu entorno. Naquela tarde fria e ensolarada de inverno, além da venda de artesanato e mateada, encontramos um grupo praticando yoga. 


Nada, entretanto, é mais surpreendente do que o Coliseu, o antigo cinema da cidade. Quando que imaginaria encontrar um cinema antigo e absolutamente preservado? Jamais! O prédio é lindo e se encontra aberto para visitação das 8h30min às 11h30min e das 13h30min às 17h30min, de terça a domingo. Construído em 1914 e originalmente um cinema, atualmente funciona também como teatro, espaço para eventos, formaturas e conta com exibição de cinema digital nas quintas-feiras. Como cinema tradicional funcionou até a morte de seu proprietário, em 1944, tendo permanecido fechado por anos. Em 1981 foi adquirido pela Prefeitura, restaurado e entregue para a comunidade já em 1987. De acordo com as novas regras para obtenção de alvará de funcionamento perdeu algo em torno de vinte lugares, mas mantém uma capacidade para 200 pessoas confortavelmente sentadas. Poltronas antigas e assoalho brilhante dão o clima nostálgico e iluminam o olhar. Possui camarins e banheiros, tudo muito arrumadinho, cheio de detalhes e cuidados. Um encanto.








O cartaz diz tudo, pois por aqui o chimarrão é quase uma entidade: se colocassem apenas bebidas, muitos entrariam com as cuias nas mãos, sem o menor constrangimento.


 
Demos uma passadinha para conhecer a "sinaleira" (semáforo). Sim, acreditem, a sinaleira francesa tem história. Presente do governo francês por Camaquã ter recebido tão bem imigrantes que de lá vieram, é a única do modelo no Brasil e uma das quatro ainda encontradas no mundo. Instalada em 1953, fez com que o local se tornasse o ponto de encontro para manifestações politicas e comemorações em geral.


Nossa terceira parada foi no Forte Zeca Netto, residência do General Zeca Netto, líder Maragato (dos lenços vermelhos, na Revolução de 1923), e sede da Fazenda da Chácara - é uma réplica em menor proporção da Estância El Vichadero, no Uruguai. Na linda construção de 1903 encontramos a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, a Biblioteca Oswaldo Lessa da Rosa, o Memorial Zeca Netto, o Museu Municipal, o Memorial da 16ª Região Tradicionalista, a Fundação Barbosa Lessa e a Biblioteca Rio Grande do Sul - pedaço do Mundo. O espaço está aberto para visitação pública de terças a sextas-feiras e, mediante agendamento pelo fone 36715288, aos finais de semana e feriados. 







Além de passearem pelas praças, o que mais fazem os camaquenses ao final de uma tarde de domingo? Curtem o espetáculo da despedida do sol junto a barragem Arroio Duro. Para uma cidade nascida às margens do rio, nada mais esplêndido do que ver o astro repousar junto as águas serenas. 


Nossas pesquisas já indicavam a dificuldade de visitar os sítios históricos ligados a Revolução Farroupilha, quer por estarem indisponíveis para visitação pública, quer por suas localizações. Como nossa intenção é oferecer uma rota que seja turística e considere os Caminhos Farroupilhas, fizemos apenas uma parada na cidade. Não verificamos opções gastronômicas e rede hoteleira. Para quem deseja se aprofundar, pode verificar na época da visita a disponibilidade de visitação na réplica da última morada de Bento Gonçalves, um passeio de barco até a Ilha de Santo Antônio ou um passeio pela Fundação Barbosa Lessa - Sitio Água Grande e Cascata. 

Desejas fazer um tour guiado, saber mais detalhes da história e conhecer os pontos turisticos? Contate Paulo Vianna pelo fone 51-85569247 ou pelo e-mail pvsa21@yahoo.com.br

A viagem #RotaFarroupilha é um projeto do Territórios e do As Peripécias de uma Flor, em parceria com os blogs Café Viagem e Mochilinha Gaúcha , que contou com as participações especiais de Andarilhos do Mundo e da jornalista Criz Azevedo. O roteiro teve o apoio de empresas regionais como BC&M Advogados e Agropecuária Sallaberry, além do suporte do Sebrae Costa Doce e de algumas secretarias de turismo. A viagem usou como base o Caminho Farroupilha elaborado pelo Sebrae RS e oferecido, como pacote turístico, pela Tchê Fronteira Turismo, de Bagé/RS.


10 comentários

  1. Não conhecia Camaquã, mas é uma graça de Cidade, parabéns pelo belo post!

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  2. Que bonito este retorno às nossas origens! Acompanhei vocês na rede e quero ler os outros posts! bj

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    1. Tem muita coisa linda pela frente, nem cheguei naqueles lugares pelos quais me apaixonei. <3 BjO!!!

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  3. Encantada com a Rota Farroupilha!!!! Acompanhei a viagem de vocês e estou louquinha para conhecer esses locais.
    Parabéns pelo belíssimo trabalho ;)
    Beijos

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    1. Obrigada, querida. Tem muita coisa boa para pintar por aqui, ainda. A Rota foi sensacional e cheia de lindas descobertas. BjO!!!

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  4. Gente, eu sou louca pelo livro e série "A casa das sete mulheres"!!! Procurei horrores na internet como visitar os lugares relacionados mas já faz mais de 5 anos a última vez que tentei e nunca encontrei quase nada de informação sobre isso. Tenho o livro que é demais e até a minissérie inteira em DVD!!! hahaha Qualquer dia desses vou até rever pra matar a saudades! rs Com certeza uma rota que eu quero fazer!!!

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  5. Uau, eu também amo a história dos lanchões! Há tantos capítulos interessantes nesta história!

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  6. Me encantei com a rota! Acho que precisamos voltar para o sul e conhecer lugares lindos e interessantes como este. Obrigada pelo Post. =)

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  7. Acho muito importante valorizarmos nossa história. Quantas tramas !Que incrível esse cinema !

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