Argolas, Sereias e Seres Mitológicos: as Aldravas pela Itália.




Em outras oportunidades já referi que antes de advogada sonhava em ser arquiteta, mas que a vida rolou e o gosto se transformou em hobby, muito ligado a História das Artes. Minha memória claudicante nem sempre me auxilia com detalhes do tanto estudado em quatro longos anos do Curso de Técnico em Arquitetura e Decoração de Interiores, onde me dediquei quase que integralmente aos meandros da história da arquitetura e da decoração de interiores ao longo dos tempos - fora o prazer do desenho técnico de móveis, uma paixão. Então, quando saio a correr Mundo e vou tropeçando em elementos característicos, logo me encanto - me recordo dos sonhos e desejos da meninice, das infindáveis leituras noturnas e do quanto tudo aquilo ainda está em mim, com sentidos talvez diversos daqueles, já que hoje sem qualquer intuito profissional. E nada melhor para reavivar a memória do que caminhar e caminhar pelas cidades italianas, tão cheias de resquícios históricos, tão atemporais e de heranças étnicas variadas. Vamos divagar e brincar um pouquinho?

A Itália, para mim, é uma festa para os sentidos, para todos os sentidos. 

Um dos elementos que estão pelas ruas e que muito me encantam são as Aldravas, aqueles simpáticos batedores de portas, tão característicos em cidades italianas e espanholas. Em abril, quando rodamos de Veneza a Roma, parando de cidade em cidade, andando por tantas ruas, eles saltavam aos olhos.

Muito mais que a beleza de muitos deles, gosto dos aspectos históricos, muitas vezes religiosos, que possuem. Há todo um lado social envolvido no uso de tais elementos e que muitas vezes nos parecem apenas decorativos. Do ponto-de-vista prático, são peças móveis em metal, bronze ou ferro fundido, com origem na Idade Média, com formas diversas e que fazem as vezes de campainhas. 


Colle di Val D'Elsa


Quando falei de Olinda (aquela graciosa cidade em Pernambuco), fiz referência as "eiras e beiras", expressão tão popular e que muitas vezes não percebemos de onde surgiu, quais seus sentidos históricos. Sim, também são elementos construtivos com forte aspecto de status social envolvido. Não viu? Se quiseres dar uma lida em minhas divagações, o post é esse: Ó Linda, ladeiras com muita história para contar!

Agora, batendo pernas pelas cidades italianas, a lente de minha câmera foi subitamente atraída pelos batedores de portas - mesmo sem saber se eles chegariam aqui, os fotografei pelo prazer da comparação, de verificar neles a presença de elementos religiosos, mitológicos quem sabe ou, apenas, sociais e práticos. O mesmo já havia acontecido na Espanha. Sim, tudo pode se tratar apenas de uso decorativo, corrente, não é mesmo? Confesso que prefiro acreditar que possuam sentidos mais profundos, pois só assim aguçam minha curiosidade. 


Siena

Se sairmos pelo Mundo, veremos que possuem sentidos diferentes, de acordo com a origem da população, de sua religião ou de como o costume foi inserido na comunidade - nas colonias, por exemplo, o sentido é muito mais prático, mas ainda assim, às vezes, podemos nos surpreender. Os portugueses utilizavam bem mais batedores com motivos ligados ao mar - peixes, sereias e âncoras são ainda hoje encontrados e fogem do sentido religioso, estão muito mais ligados a atividade laboral e ao instinto explorador que moveu aquele povo. E, por termos sido colonizados por eles, é comum encontrarmos em centros históricos de cidades do Nordeste as aldravas ligadas a elementos da pesca. No Marrocos, por sua vez, possuem um sentido social-religioso - ainda são mantidos em casas tradicionais dois batedores com sons distintos por porta (normalmente um em forma de pingente e o outro de argola), de modo que a esposa saiba se quem bate à porta é homem ou mulher (se for mulher poderá abri-la, caso contrário, não). Já em terras espanholas e italianas, eles ganham mais um sentido religioso ou de ascensão social, embora muitos dos elementos usados ainda estejam muito ligados a cultura muçulmana e de povos bárbaros - usados para espantar maus-espíritos e mau-olhado.


Sereia (reza a lenda que habitariam a costa italiana, junto a Ilha de Capri), peixes e ser mitológico: Lucca. 

Pelas ruas italianas encontramos uma grande variedade deles, a maioria com desenhos bastante clássicos, algumas vezes somados a botões e rosetas, que eram responsáveis por determinar o status social dos moradores da residência. 


Veneza.

Firenze.

Firenze. 

Firenze

As aldravas mais comuns são em forma de argolas, simples, algumas com pequenos detalhes que lhes dão alguma distinção - o detalhe também pode estar no suporte, alguns em forma de animais ou ramos. 


Flor de Lótus - Firenze: prosperidade, sabedoria e paz. 

San Gimignano

Pienza

Ramos: simboliza a entrada de Jesus em Jerusalém, é o símbolo da peregrinação dos fiéis. 

Saindo do nicho de argolas, chegamos aos Leões, os mais interessantes e cheios de simbolismos. O leão é um simbolo solar e que foi muito usado pela realeza como símbolo de força e riqueza - é muito comum encontrarmos esculturas de leões ornando a entrada de palácios e castelos. São considerados os guardiões das portas, por excelência e, normalmente, utilizados para causar medo ou estimular o respeito. 


Pisa

Firenze

Siena

Há um misto muito frequente da figura de seres mitológicos que se confundem com leões ou homens.

Peixes + figuras mitológicas: Roma.

Encontramos em diversas cidades, esse em especifico em Assis. 

Figura mitológica: Roma 

Na Itália, entretanto, podemos divagar sobre os aspectos mais religiosos, do ponto-de-vista católico. O Leão representa uma metáfora do Divino e seria, então, um simbolo de proteção: seu rugido, assim como a palavra de Deus, protegeria a família crente e, por consequência, sua casa. 


Figura mitológica + anjos ao centro + leão: Siena.

Roma

Qualquer que sejam os sentidos que fizeram com que ganhassem imagens e contornos diversos pelo Mundo, hoje servem para avisar aos moradores da chegada de visitas, já que os sons desses contra as fortes portas de madeira ecoam pelo interior das residências. O charme, talvez, esteja apenas em tê-los como elementos decorativos ou, de forma singela, para afastar o mau-olhado:


Figa. 






8 comentários

  1. Menina, essa idéia é apenas sensacional. Curti muito o texto, mas especialmente a idéia de escrever a respeito. Já as fotografei inúmeras vezes, embora tenha uma queda especial pelas portas coloridas, confesso, mas jamais pensei nos sentidos como você fez no texto. Parabéns. Beijão.

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    1. Eu sabia um pouco dos significados e quando me vi em meio à elas, não resisti. São lindas. BjO!!

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  2. Querida Paula,
    Imagino como a Italia deve ser mesmo para vc um parque de diversoes.
    Sabe que agora que li teu texto, fiquei pensando que em Milao nao existe assim tantas aldravas? Nao consigo me lembrar delas, mas prometo que vou procura-las.
    Ah, e se tem em toda Italia e aqui nao, algum motivo historico e de tradiçoes deve ser o motivo.
    Otimo post e.... se todos conhecessem as cidades como vc...
    Bjs

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    1. Mage, sou uma turista esquisita, não possuo roteiros por dia dentro de uma cidade, só anotações quanto aos pontos mais conhecidos ou apreciados. Dai saio caminhando e, eventualmente, deixo até de ir naquele lugar que é considerado o "imperdível", mas as horas passam enquanto dobro esquinas. O que importa é ser feliz, não? Amei andar fotografando as Aldravas pelas cidades, ir comparando!! BjO, querida!!

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  3. Estou encantada com esse post! Também sou atenta aos detalhes e a Europa é um continente mais que apropriado para embelezar os nossos olhos quando o assunto é arquitetura. E o seu texto leve me fez viajar ainda mais :)
    Bjs

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    1. Sabe que curto viajar nos detalhes? As vezes vejo a multidão olhando para o mesmo lugar e estou lá no cantinho, olhando o dedão da escultura? Foi um prazer escrever sobre as Aldravas, uma outra viagem. BjO, Gabi!

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  4. Estou vendo esse post pela segunda vez e agora com a cabeça voltada para a cultura do Oriente Médio. Lembrei que as portas de Marrakech são coisas de lokooo!!! Tá aí um destino que acho que vocês vão curtir ;)
    Bjs

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  5. Adoreeeeeiiiiii ! Acho que podíamos organizar umas viagens e você e o Jose Carlos seriam nossos guias históricos/arquitetônicos. Ele foi arquiteto na outra encarnação e ama ler sobre colunas, janelas.

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