Uma exposição por seus olhares.



Os anos passam e paixões vão florescendo, se arraigando, a partir de novos olhares. Assim tem sido minha relação com a fotografia, a cada dia mais apaixonante, mais madura. E, em algumas oportunidades, por ela me movo, me encanto, me enterneço. Com esse olhar apaixonado cheguei na exposição Gênesis, de Sebastião Salgado. 


Uma exposição sem cores, sem distrações, a realidade de cada um dos lugares visitados crua, nua. Em preto, branco e sombras.


Dividida em três espaços, sendo o primeiro ao ar livre, permitindo que as luzes do dia interfiram no resultado da obra. Os demais espaços com propostas que dividem o conjunto por assuntos. Não houve necessidade de divisões, encarei cada imagem como única, com seu sentido de acordo com meu olhar.


Para mim uma exposição do olhar sobre os olhares. Explico: meu encantamento recaiu imediatamente, ainda nas primeiras imagens na área externa, sobre os olhares, profundos, singelos, fortes. O olhar direto, que desnuda seu interior, que lhe é simples, provocativo, único. Passei pelas paisagens, mas sem o mesmo encanto. 



Gênesis para mim foram olhares, nos quais me perdi. Há algo de único e profundo naqueles olhares diretos, naqueles rostos de traços tão diferentes, de raças marcadas nas curvas e rugas, no singular. Não há plurais, nem quando é plural, pois cada olhar é único. 


As cores estão nos sentidos daquele trabalho em preto e branco, em suas sombras que lhe dão brilho. Se nas primeiras imagens expostas você percebe a ausência de cores, em segundos seus sentidos aceitam e passam a fornecer as cores que estão em você, que você doa aquele trabalho, o complementando de forma particular - deixa de ser uma obra aberta, para ser sua. 


A exposição está no Sesc Belenzinho, com entrada franca. Para mim um lugar pouco adequado, pois sediado próximo a área das piscinas, onde a algazarra interfere nos momentos de contemplação dos visitantes. Há obras para serem vistas, sentidas, pensadas e discutidas, como essa, e tal requer um pouco de recolhimento, de silêncio. Por outro lado, percebo que oportuniza a comunidade um contato direto com nuances tão profundas e diversas, o que talvez explique estar ali. 

Tantos olhares - olhares que permanecem imunes à "aceleração da vida moderna".  O olhar da força....


Olhar da simplicidade, cortante, instigante....


O olhar do caçador...


O olhar da caça...


E um olhar que nos permite o olhar inocente, que ao mostrar o desnudo o reveste de ingenuidade... 


Gosto de verbos, aprecio conjugar o "permitir", o "jogar", o "entregar". Na primeira pessoa, se permitindo, se jogando, se entregando aos sentidos, permitindo olhares a partir do olhar do artista sobre olhares do Mundo. Assim foi o toque de Sebastião Salgado no meu dia, na minha Vida, no meu olhar. Essa foi a minha Gênesis. 


E em alguns momentos ela foi tão minha, tão particular, que um toque a aproximou, a trouxe para o coração da gaúcha. Percebem o mapa do Rio Grande ali, nas sombras, exibido, metido naquele momento como se fosse seu? 



12 comentários

  1. Ótimo relato sobre as obras do Salgado. Fui também aqui no rio e me apaixonei ainda mais pelo artista. Ele é realmente incrível.

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    1. Concordo, a paixão só fez crescer! Abraços!
      Paula

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  2. Ainda preciso ir lá conferir, mas seu post já me atiçou a vontade! Abs.

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  3. Eu tenho vontade chorar quando lembro que não fui ver a exposição dele no RJ.
    Quando aconteceu eu apenas gostava de fotografia, ainda não me interessava muito sobre o assunto como hoje.

    Viu a entrevista dele no Roda Viva?

    :'(

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    1. Tati, vi sim e foi exatamente o dia em que decidi comprar a passagem e ir! Já era fã, mas somado a entrevista, foi o estopim! Valeu a viagem! Beijo! Paula

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  4. Belo relato. Maravilhosa mesmo a exposição! E não canso de agradecer pela dica sua, pois só fiquei sabendo que a exposição estava em SP por dica sua pelo twitter. :)

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    1. Também fiquei encantada com a exposição, amei ter ido de coração aberto! Abraços!!

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  5. Lindo relato! Vou neste fibal de semana.

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    1. Com seu espetacular olhar em fotografias, irá curtir muito Flora! Abraços!

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  6. Visitei a exposição por três vezes já, para levar amigos que visitam a cidade. É comovente, mexeu muito comigo, mas não tinha percebido que haviam sido os olhares que me perturbaram, talvez. Verdade, são simples, diretos, cortantes, mesmo. Agora lendo seu relato e curtindo suas imagens me dei conta da importância desses olhares onde quer que estejamos. Viajo tanto e não sei se percebo os olhares, o povo, fico tão absorvida conhecendo lugares que talvez esqueça das pessoas. Gostei.

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    1. Nos últimos anos tenho pensado muito nisso, em perceber as pessoas, não só conhecer os lugares. E gosto de mãos e olhares, desde sempre, acho que são por onde consigo conhecer a pessoa e meu gostar ou desgostar está muito ligado a esses fatores. Visitaria outras vezes, mas para nós aqui do Sul fica dificil. Passagem rápida pela cidade, visitinha única, infelizmente. Beijo, querida!

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